15 maio 2010

Perdoa-me por me traíres

Só uma vez em sua vida ela havia ganho no Black Jack.
Era um início de noite. Ela estava sentada sozinha em um cassino de San Juan, jogando duas ou três rodadas para se distrair.
Dava para dizer que o crupiê tinha gostado dela; da maneira mais sutil, ele lhe indicava quando era bom pedir cartas, e quando não era.
Num curto espaço de tempo, ela ganhou um monte de dinheiro. Mas quando seu namorado apareceu, a cara do crupiê desabou - e ela sentiu que o havia traído. Não, é claro, a ponto de devolver o dinheiro.

05 maio 2010

Para todo problema, uma solução.

Às vezes basta ser criativo.
Deixe que uma imagem surpreenda suas expectativas!

10 abril 2010

Sobre o Amor

... Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teu pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repende, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugado os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

04 abril 2010

O óbvio ululante

Digamos que o profeta é o que enxerga o óbvio. Como se sabe, é o óbvio, como o próprio nome está dizendo. Mas acontece que ninguém o vê. Assim como o Pão de Açúcar está no fundo da enseada, assim o óbvio se insere em qualquer paisagem. Qualquer um pode apalpar, farejar o Pão de Açúcar. Muitas vezes esbarramos, tropeçamos no óbvio. Pedimos desculpas e passamos adiante, sem desconfiar que o óbvio é óbvio. Outras vezes, ele está numa frase, numa manchete. Mas nem a frase nem a manchete percebem que o óbvio explode no alto de uma primeira página.

27 março 2010

Mulher

Uma mulher em sua plenitude não admite o previsível.
Quer domar e ser domada, surpreender e ser surpreendida, despir e ser despida em todas as suas formas.
Quer ser mulher: Objeto de desejo latente, de compasso e descompasso.

Nelson Rodrigues já dizia...


Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura.
Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino.
E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista.
Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.

Um supérfluo essencial

Como se sabe, a nossa graça, ou desgraça, depende do supérfluo.
Não só o feijão e a carne-seca fazem o homem feliz ou infeliz.
Precisamos do sapato, da jóia, da gravata, do penteado, coisas de um supérfluo imprescindível.
Por que as mulheres se vestem?
Porque o vestido é supérfluo e a nudez essencial.

Nelson Rodrigues - O Reacionário