O homem, sendo perecível, não se julga perecível. Não sei se me entendem. O homem acredita na morte, mas não na "própria morte" (na minha infância, eu não acreditava nem na morte dos outros). Todavia, há situações vitais que não admitem dúvida, nem sofisma. E o homem "sabe", de repente, sabe que "vai morrer".
Está diante da própria morte. Não de outra qualquer, mas da "sua". Há os que perguntam: "Doutor, quanto tempo tenho de vida?" E o médico: - "Um mês, ou dois, ou três.".
O tempo é o de menos. Sejam três meses, ou um ano, ou sessenta anos. O insuportável é que o homem fica sabendo a data, quase o dia, quase a hora, quase o minuto da sua morte.
Houve um que disse ao médico: "- Eu não tenho três meses de vida."
O médico não entende ou só entendeu quando o viu puxar o revólver. O clínico imagina: - "Vai me matar.". Mas o doente virava a arma contra si mesmo. Já que não era a vítima, o clínico passou a outro problema. Pedia: - "AQUI NÃO! AQUI NÃO!"
Mas o cliente introduziu o cano na boca e puxa o gatilho. Assim devolveu os três meses que lhe dera o médico.