10 abril 2010

Sobre o Amor

... Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teu pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repende, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugado os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

04 abril 2010

O óbvio ululante

Digamos que o profeta é o que enxerga o óbvio. Como se sabe, é o óbvio, como o próprio nome está dizendo. Mas acontece que ninguém o vê. Assim como o Pão de Açúcar está no fundo da enseada, assim o óbvio se insere em qualquer paisagem. Qualquer um pode apalpar, farejar o Pão de Açúcar. Muitas vezes esbarramos, tropeçamos no óbvio. Pedimos desculpas e passamos adiante, sem desconfiar que o óbvio é óbvio. Outras vezes, ele está numa frase, numa manchete. Mas nem a frase nem a manchete percebem que o óbvio explode no alto de uma primeira página.