10 abril 2010

Sobre o Amor

... Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teu pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repende, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugado os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

04 abril 2010

O óbvio ululante

Digamos que o profeta é o que enxerga o óbvio. Como se sabe, é o óbvio, como o próprio nome está dizendo. Mas acontece que ninguém o vê. Assim como o Pão de Açúcar está no fundo da enseada, assim o óbvio se insere em qualquer paisagem. Qualquer um pode apalpar, farejar o Pão de Açúcar. Muitas vezes esbarramos, tropeçamos no óbvio. Pedimos desculpas e passamos adiante, sem desconfiar que o óbvio é óbvio. Outras vezes, ele está numa frase, numa manchete. Mas nem a frase nem a manchete percebem que o óbvio explode no alto de uma primeira página.

27 março 2010

Mulher

Uma mulher em sua plenitude não admite o previsível.
Quer domar e ser domada, surpreender e ser surpreendida, despir e ser despida em todas as suas formas.
Quer ser mulher: Objeto de desejo latente, de compasso e descompasso.

Nelson Rodrigues já dizia...


Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura.
Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino.
E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista.
Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.

Um supérfluo essencial

Como se sabe, a nossa graça, ou desgraça, depende do supérfluo.
Não só o feijão e a carne-seca fazem o homem feliz ou infeliz.
Precisamos do sapato, da jóia, da gravata, do penteado, coisas de um supérfluo imprescindível.
Por que as mulheres se vestem?
Porque o vestido é supérfluo e a nudez essencial.

Nelson Rodrigues - O Reacionário

Debilidade sexual

Você já viu um ser humano fazendo sexo? Não? Nem queira. É simplesmente horrivel.
Desajeitado, reprimido, rapidinho demais, egoísta, peludo e feio pacas.
Urram, rosnam, chiam, miam. Às vezes, dependendo do clima, cantam até um tango.
Para desgosto do freguês.

We are the World

O ser humano é um poço de otimismo. Deixa-se levar por qualquer trolha. É páscoa, se fantasia de coelhinho. É natal, veste-se de Papai Noel, e no Ano-Novo parece uma tia velha de tanta esperança. Abraça todo mundo, solta rojões, estoura champanhe... Por pouco não explode de tanta babaquice.
Acredita no Papa, no Ronald Reagan, no Dias Gomes... O que pintar, a besta engole.
Até "Nova República".
ÉÉÉÉCA!